Total de visualizações de página

quinta-feira, 5 de março de 2020


Quando a sobrinha chega, ela sente que precisa falar do que está acontecendo.É como se algo estivesse desligando dentro dela,mas ao mesmo ligando em uma época diferente.
As angústias dos últimos dias ,um medo incontrolável,uma vontade de chorar,mas as lágrimas secaram,os sonhos misturados.Tem medo de dormir.
No entanto, há dias lindos,uma menina enigmática vem conversar com ela e as duas se transportam para um mundo distante,as duas vão para a casa das tias.Lá elas podem tudo.
Nesta casa há um baú onde uma das tias não deixa ninguém abrir.Dizem que ali há rendas e louças inglesas,que o avô comprara para o casamento da tia,mas ela nunca se casou e proíbe qualquer um de chegar perto.
A outra tia,viúva,com um casal de filhos foi quem cuidou dos irmãos quando sua mãe falecera com trinta e cinco anos deixando uma prole de doze filhos e grávida por ocasião do falecimento .
Diziam na época que teve tantos filhos em um curto espaço de tempo ,que a morte foi antecipada.
Morava na casa um outro tio.Ele era viajado,conhecia tantos lugares,visitava os outros irmãos que moravam mais distantes.Era querido por todos.Um solteirão.Diziam que ele tinha um casal de filhos ,mas nunca apareceram.
Ainda moravam nessa casa mais três sobrinhos.Excetuando a tia viúva ,os moradores dali nunca se casaram.
As meninas vão passeando por cada cômodo daquela casa.Há um santo na mesinha onde se vê várias moedas.Elas pedem ao santo algumas emprestadas para comprar balas no dia em que fossem até o vilarejo.Como quem cala consente,o dinheiro foi emprestado.
Da cozinha exalava um cheiro gostoso.Era mais ou menos nove da manhã .(Ela se lembra que o almoço era nesse horário).As panelas pretas por fora e como um espelho por dentro,isso a intrigava.
Aquela casa era o refúgio dos sobrinhos que moravam nas redondezas.
As tias com sua saias longas viviam fazendo quitutes.
No quintal um pé de jabuticaba,laranjas e a bica d’água faziam a alegria da molecada.
Quantas brincadeiras revestidas de amor inocente de primos e irmãos.Isso é vivo e real ,mas que se misturam a algo que não consegue lembrar.É como se fosse uma vida vivida há tempos entrando em sua vida vivida agora.Como tem medo de estar maluca.Precisa falar com sua sobrinha,ela há de entender.A vida parece querer perder a cor e voltar ao preto e branco das fotos antigas ,que parecem atuais.

A sobrinha senta na varanda depois de conversar com a mãe e seus irmãos.Ela então a chama e pede que vá até o quintal.Lá ela tem privacidade.
E explica o que está acontecendo,revela os sonhos se entrelaçando,o passado se impondo e o presente se perdendo.
Relata todos os medos.
A sobrinha escuta com carinho e em seu coração brota uma lágrima que não poderá transbordar nos olhos,precisa ajudar aquela tia tão sofrida,que abdicou de seu amor por obediência ao pai.
Que criou e educou filhos de outros e foi privada de ter os seus próprios filhos.
Que trabalhou muito, que tinha mãos de fadas para o bordado e o tricô,que tinha sido explorada por um marido egoísta.E agora,viúva,livre das algemas de um casamento sem amor,onde ela era somente a empregada daquela casa em uma zona rural de uma cidadezinha do leste de MG .No momento em que poderia ser livre,viajar,passear na casa de seus irmãos,viver intensamente os dias ou anos que restavam,sua mente começa a brincar de esconde-esconde com ela.Seria justo?Sem reposta para suas próprias indagações,a sobrinha dá um sorriso triste e apazigua aquela tia atormentada.

O dia estava quase acabando.
A tia bebia seu café com leite, tranquila, como se o passado,presente e futuro não fizessem diferenças.

A sobrinha toma benção, despede de todos e vai para casa pensativa e triste,pois sabia que nem a poesia,nem o amor poderiam curar sua tia,no entanto levava a certeza de que ambos poderiam melhorar a qualidade de vida daquele ser que lutava para manter viva suas memórias.E aquele domingo ficou marcado na vida da sobrinha,pois a tia já nem se lembrava mais da conversa.

E foram dias difíceis.A doença foi tomando conta rapidamente daquele ser.E os sobrinhos foram transformados em anjos aqui na terra e deram a tia uma vida digna ,repleta de carinho e amor.
Esses ingredientes tão puros fizeram da tia um ser feliz dentro do possível e a doença não teve coragem de apagar da memória dela o amor que a acompanhou até a eternidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eu

Eu

Meus lindinhos

Meus lindinhos

Arquivo do blog

Igreja São Sebastião

Igreja São Sebastião

Arquivo do blog

praça das palmeiras

praça das palmeiras

Membro fundador da Academia Inhapiense de Letras